
O Abílio é um triste. Aos 39 anos, vive com a mãe na zona industrial de Castelo Branco numa casa de 3 assoalhadas e uma varanda fechada. Está a viver do subsídio de desemprego há 4 meses, desde que o despediram do call-center. Parece que tratou mal uma senhora. Ela foi demasiado simpática e ele não gostou.
Agora, enfiado no seu quarto todo o dia, prescuta as maravilhas da net, em busca do que o entretenha. E como alma triste que é, entretém-se com coisas tristes. No seu quarto de 3m por 5m, o Abílio destila fel. O Abílio escreve tudo em letras maiúsculas, não porque veja mal ou precise de óculos. Apenas porque o Abílio é pequeno. Apenas 1,55 m de gente. Que o fazem precisar de coisas grandes. Para não se sentir tão pequeno.
O Abílio detesta gente bonita. Porque é feio. Por dentro e por fora. Por fora, porque os pais, além de primos, eram os dois feios. Por dentro, porque cresceu sozinho, o mau feitio não ajudou, foi gozado desde a infantil até ao liceu, e porque é assim. Mais do que gente bonita, Abílio não gosta de gente feliz. Destesta sorrisos, gargalhadas, pessoas de bom aspecto, com ar de bem com a vida. Ele, que está sempre de mal com a vida, como podia gostar de gente assim?
A mãezinha do Abílio trata-o como se ele tivesse 15 anos. Tira-lhe as espinhas do peixe espada preto. Corta-lhe as unhas dos pés e dá-lhe óleo de fígado de bacalhau desde tenra idade. "Enrijece!" diz ela. O Abílio também não gosta muito dela, mas tem de a aturar, pois a casa é dela. E tem de lhe massajar os pés, todos os dias antes dela ir para cá cama, por causa dos joanetes. Ela diz que ele tem as mãos macias e até se lhe dão voltas ao estômago, mas tem de ser.
Como não sai de casa, o Abílio não convive com ninguém, além da sua mãe. Cada vez mais, detesta pessoas. Cada vez mais deseja sair do seu quarto, mas não para se misturar com ninguém. Apenas para largar a mãe e aquela casa.
O Abílio, que se tem em alta conta e acha que toma toda a gente por lorpa, já desenhou o seu futuro. Um dia destes, mata a mãe durante o sono (sufoca-a com a almofada de penas de pato) leva-lhe o ouro das tias e o marfim, e pira-se para Angola. O Abílio gosta do calor. E das nativas. E parece que a internet por lá também funciona.
Um dia, o Abílio vai ser feliz em Angola
Qualquer semelhança com a realidade, é pura coincidência.
(E não me venham cá com a treta de que não há coincidências!)