Novela (que podia ser mexicana) com um número infindável de episódios e protagonistas a mais, vendida em pacotes económicos aos países do leste europeu. Enredo muito intrincado, malfeitores qb, doses exageradas de sacanices, facadas nas costas e muitas figurantes com língua de porteira. A única coisa que vale a pena no meio desta salganhada toda?! A protagonista, que interpreta este argumento sem mudar uma vírgula... ou não fosse isto a sua vida.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

7 anos para reaprender

Lembro-me de tudo. O telefone a tocar às 6h da manhã. Dele a disfarçar a voz, para eu não entender quem era. Do ar pesado, constrangido até, com que me disse "O teu pai morreu."
Lembro-me do meu desabafo "Graças a Deus". Só quem vê uma pessoa que ama a sofrer com cancro, compreende a sinceridade do que eu disse.
Lembro-me de telefonar a algumas pessoas. Lembro-me de todos os que apareceram. Dos que me abraçaram. Lembro-me em que ombros chorei.
Lembro-me do espanto nas pessoas que não sabiam que eu estava grávida. Dos conselhos não pedidos, mas dados exaustivamente "tu não devias estar aqui".
E o cheiro. Das flores. E da chuva. Chovia imenso. Lembro-me de entrar no carro funerário, com a minha mãe e o meu irmão, e o senhor da agência perguntar "estão bem instalados"? Lembro-me daquilo andar a 10km/hora e de ter uma vontade enorme de gritar ao motorista "acelera-me essa merda!". Parece que tínhamos de esperar por toda a gente.
E o senhor da agência? Nem de encomenda. De blusão de cabedal sebento, dentes podres e uma tendência enorme para o disparate. Trocou o nome do meu pai, no mínimo, duas vezes. Disse-nos no final para não nos preocuparmos com o pagamento, que tínhamos muito tempo. Para no dia seguinte de manhã me aparecer à porta de casa, a exigir o cheque.
Lembro-me de tudo. Com a experiência, sei que o tempo não cura nada. Apenas nos permite reaprender a viver.
Passaram sete anos. E eu, apesar de me lembrar de tudo, reaprendi a viver.

4 comentários:

Mad disse...

1 beijo (não sei se o outro foi).

João Paulo Cardoso disse...

Daqui de onde leio isto só te posso mandar um beijo grande, grande, cheio de ternura.

Um bom fim de semana.
Mesmo.

Maria do Desassossego disse...

Obrigada lindos:-)

Ervi Mendel disse...

Prémio no Ervilhas :)